2006-Apr-7 - Welcome back Miguel
O nosso habituê preferido, o Miguel caetano, deixou-nos discretamente na caixa de comentários um texto seu sobre o Mayday:
"A intervenção artística nas ruas com fins políticos e sociais é
também uma componente dos projectos colaborativos artivistas. A
manutenção de um espaço virtual na Internet para divulgar informação é,
tal como no hacktivismo, uma prática corrente. O colectivo italiano
Chainworkers1, de Milão, actua como uma organização laboral que apesar
de não ter quaisquer intenções estétiicas directas, aspira "desenvolver
uma linguagem icónica que possa alcançar em simultâneo os jovens que
desempenham tarefas de serviços em cadeias de lojas, trabalhadores
temporários e intelectuais free-lancers", refere Brian Holmes (idem).
Entre o seu leque de acções contam-se a realização de manifestações e a
afixação de faixas com mensagens de protesto em centros comerciais, o
que é considerado ilegal uma vez que o direito de reunião pública
dentro destes espaços é bastante constragido (ibidem). O site deste
colectivo funciona como um recurso de informação jurídica e um meio de
criar uma consciência colectiva. O Chainworkers foi ainda responsável
pela reinvenção da tradicional manifestação do Primeiro de Maio,
adaptando o conceito de manifestação às condições laborais do século
XXI em que as economias ocidentais assentam sobretudo no trabalho
precário e flexível. O sucesso do EuroMayday2 acabou por superar as
iniciativas lideradas por sindicatos: a primeira edição, em 2001,
reuniu cinco mil participantes em Milão, ao passo que a terceira, em
2003, conseguiu congregar 50 mil pessoas na mesma cidade italiana.
Posteriormente, a iniciativa alargou-se a Barcelona tendo-se depois
difundido para o resto da Europa, tendo a edição de 2005 abarcado 19
cidades do continente. Brian Holmes descreve um pouco o ambiente que se
vai viendo ao longo das ruas durante estes eventos:
Dançarinos com écharpes de plumas rosa que entram numa loja Zara
para sabotear o comércio da moda; trabalhadores africanos que envergam
máscaras brancas que têm escrito "invísivel"; um boneco gigante
representando os diferentes tipos de empregos temporários ("escravos"
dos call-centers; entregadores de pizzas; operários da construção civil
que recebem ao dia), Uma enorme faixa verde envolve a parte lateral de
um camião que transporta uma aparelhagem sonora por entre a multidão:
"A metrópole é uma besta: cultiva a micropolítica da resistência". Um
dos cartazes do evento exibe um contorcionista de um circo antiquado -
uma alegoria do trabalhador flexível na sociedade do espectáculo"
(idem).
Para além de desenvolver uma "linguagem estética sob a forma de um
território de expressão, o EuroMayDay reinvidica um conjunto de
garantias mínimas de modo a tornar o trabalho flexível numa actividade
digna e viável: "um ambiente urbano não-poluído; habitação e cuidados
de saúde generalizados; educação pública de qualidade; acesso às
ferramentas de produção de informação - mas também ao tempo e aos
espaços necessários para a produção social e afectiva" (idem). Os
trabalhadores precários ou atípicos exigem assim um novo regime de
segurança social que os protega sem renunciar à flexibilidade, a
"flexigurança", como é designada por Marcello Tari e IIaria Vanni3. Do
mesmo modo que outros elementos da geração pós-fordista a que
pertencem, não procuram obter uma posição permanente e para toda a vida
(idem).
Em Fevereiro de 2004, os Chainworkers introduziram uma nova
performance, São Precário4, o santo patrono dos precários em
substituição do papel tradicional de líder e porta-voz, uma figura com
uma história própria que tem surgido de uma forma nomádica em diversas
cidades da Itália. Matteo Pasquinelli considera que se trata de uma
"estrela pop open-source (tal como o seu percussor Luther Blissett) que
funde personagens arquétipas do imaginário colectivo italiano (os
santos) com as mais recentes personagens sociais (os trabalhadores
temporários)"5. Na medida em que se "apropria da tradição católica
italiana de transportar estátuas de santos em procissões nos espaços
públicos", este novo héroi é visto por do mesmo ângulo que já abordámos
anteriormente: funciona simultaneamente como "um détournement, uma Zona
Temporária Autónoma, um carnaval" (Tari e Vanni, 2005). O santo, que
também faz milagres, "aparece em espaços públicos durante a realização
de comícios, marchas, intervenções, manifestações, festivais de cinema,
feiras de moda e, é claro, procissões". A personagem fez as suas
primeiras aparições a 29 de Fevereiro - data fixada para o dia desta
nova "devoção" -, tendo desde então se multiplicado e materializado em
diferentes disfarçes - pois "não privilegia uma classe de precários em
relação a outra", tendo também já surgido sob a forma de uma figura
feminina (idem). O culto gerou um grande número de seguidores o que
levou à criação inclui uma série de acessórios e rituais associados à
santidade, como várias e diferentes estátuas que são transportadas em
procissões, atributos iconográficos, hagiografia - narrativa biográfica
-, uma oração, campo de especialização e até mesmo o seu próprio
santuário, numa praia de Lido di Veneza (ibidem).
A capacidade de São Precario se transfomar a qualquer momento num
novo imaginário ficou bem patente na sua mutação em Serpica Naro6, um
estilista anglo-nipónico "virtual" com um site7 própio de aspecto
profissional semelhante aos de outros designers de moda, que conseguiu
ser aceite pelos organizadores da Semana da Moda de Milão, sem que
estes conhecessem que se tratava de uma farsa. Mesmo antes de desfilar,
a figura despertou um grande interesse junto dos media comerciais
generalistas e especializados, que eram incentivados por comunicados de
imprensa supostamente oriundos de um gabinete de comunicação em Tóquio.
Para gerar mais controvérsia, os Chainworkers puseram a circular a
informação de que Serpica tinha explorado a comunidade gay japonesa ao
copiar e comercializar o seu visual depois de ter proposto uma
colaboração com eles. O desfile, realizado a 29 de Fevereiro de 2005,
contou com oito modelos concebidos por Serpica abordando o tema da
flexibilidade e das condições de trabalho precárias., seguido por uma
passagem de modelos criados por jovens estilistas que se recusam a
comprometer com o sistema da moda. No final, foi anunciado que Serpica
Naro não existia, tendo a performance sido anunciada à comunicação
social que divulgou amplamente a história. Matteo Pasquinelli considera
que, para além de "ter sido útil na condenação das condições dos
trabalhadores precários dentro da indústria italiana da moda", a
personagem serviu para "criar uma metamarca - uma marca que engloba
outras, como um franchising - aberta que qualquer estilista de 'moda
radical' pode empregar". Mais do que uma mera partida, "Serpica Naro é
uma versão generosa da Marca Registada" em que "todos podem ser
estilistas"; "qualquer um que se identifique com Serpica pode fazer
parte dele", pode-se ler no comunicado final8 elaborado pelos
Chainworkers.
Yomango9 foi um dos grupos que elaborou modelos para o desfile de
Serpica Naro. Trata-se de um projecto da responsabilidade de Las
Agencias10, um colectivo de Barcelona que desenvolve vários projectos
tácticos recorrendo a tecnologias digitais para produzir e distribuir
fisicamente ou online cartazes, folhetos, autocolantes e vídeos. O nome
desta metamarca associa a cadeia espanhola de lojas de roupa Mango com
um termo do calão castelhano que pode ser traduzido para "Eu roubo
(gamo)". O projecto disponibiliza informação e recursos para promover o
furto de roupas e outros produtos comercializados por transnacionais
como a Mango, organizando ainda acções colectivas de "gamanço" e
jantares "Yomango" para o consumo dos bens alimentares furtados."
NOTAS:
1 Site disponível em http://www.chainworkers.org.
2 Site disponível em http://www.euromayday.org.
3 Tari, Marcello e Vanni, Ilaria (2005), "On the Life and Deeds of
San Precario, Patron Saint of Precarious Workers and Lives",
Fibreculture Journal, nº 5, Setembro. Disponível em
http://journal.fibreculture.org/issue5/vanni_tari.html (acedido a 12 de
Dezembro de 2005).
4 Site disponível em http://www.sanprecario.info.
5 Pasquinelli, Matteo (2005) "An Assault on Neurospace (Misgued
Directions for)", Interactivist Info Exchange, 18 de Julho. Disponível
em http://info.interactivist.net/article.pl?sid=05/07/19/0441211
(acedido a 12 de Dezembro de 2005).
6 Um anagrama do nome do santo, ou seja, uma palavra formada pela alteração da ordem das letras de outra palavra.
7 Disponível em http://www.serpicanaro.com/website/index.html.
8 Disponível em http://www.serpicanaro.com/press/oper_serpica_en.zip.
9 Site disponível em http://www.yomango.net
10 Site disponível em http://www.sindominio.net/lasagencias.
|
|
Comments (0) :: Post A Comment! :: Permanent Link
|
2006-Apr-6 - Mayday 06

Já se começa a preparar o Mayday de 2006 nas cidades europeias onde se passa alguma coisa. Uma acção prévia para Bruxelas anunciada no Indymedia Itália
Aqui o site do ano passado.
Aqui uma pequena descrição do Mayday de há dois anos em Milão:
"Um espectro agita-se sobre a Europa. Neste primeiro de Maio reuniram-se simultaneamente em Milao, Barcelona e Dublin centenas de milhares de pessoas para protestar contra as novas formas de trabalho precario e marcando uma diferença em relaçao às tradicionais marchas funebres que ocorrem nesta data. Em Milao cerca de 75 000 – 100 000 pessoas reuniram-se numa marcha festiva, para là de umas timidas Bandeiras de Rifondazione ( partido trostkista italiano) e do Partido Comunista do Sri Lanka, nao se viu vivalma relacionada com partidos politicos, sindicatos institucionais ou ATTACs. As acçoes começaram logo de manha com a chegada de vàrios comboios ocupados de diversas zonas do pais. Reunindo-se em pequenos grupos varias centenas de pessoas moblizaram-se para efectuar piquetes de greve às grandes superficies abertas, na sua maioria lojas especializadas como a Zara ou a Benetton jà que uma sèrie de supermercados anunciaram que este ano fechariam as suas portas por medo da manifestaçao. Na Corso Vittorio Emanuele, uma das artèrias comerciais da cidade, um grupo de samba acompanhado por cerca de 40 fans conseguiu entrar e fechar uma loja da Zara, uma Mondadori (Mega livraria de Berlusconi) e uma magastore da Disney, sem que se verificassem acçoes repressivas por parte da policia. Às tres da tarde reuniram-se na Porta Ticinese cerca de 90 000 pessoas para dar inicio à manifestaçoes que tinha um trajecto ainda bastante longo. Estavam representados alguns dos inùmeros centros sociais de Milano, do Leoncavalo ao Bulk, e de outras partes do pais, vàrios colectivos da mais diversa ordem, autonomos, antifacistas, GLBT, antirepressao e controlo social, de contrainformaçao, crews de DJs, anarquistas, etc. Toda a manifestaçao, longuissima, estava inundada por todos os tipos de mùsica e bastante gente tomava uma parte mais activa, colando cartazes, autocolantes e fazendo pintadas. Um colectivo de Bergamo que estuda o controle urbano apresentou-se com um pincel de vàrios metros e pintava de cor de rosa as telecameras na rua, durante o trajecto um Mcdonalds e uma Caixa Multibanco foram levemente destruidos, vàrios cartazes relativos à eleiçoes europeias foram alterados ou destruidos. A manifestaçao acabou às 19h30 com uma rave improvisada na Praça do Castelo, no centro de Milao, onde a festa se prolongou atè de madrugada. Foi o quarto ano em que se organizou este Primeiro de Maio contra o precariato em Milao e o segundo em que teve uma relevancia importante, à parte deste dia estao a prosseguir inumeras iniciativas que vao ainda durar dois meses. A manif foi publicitada utilizanda a imagem de um S. Precario, um filho bastardo do S.Giovani Santo dos Trabalhadores, que partilha o nome com a habitual manifestaçao dos Sindicatos."
e algumas imagens:





Aqui o link da Manifestação virtual

|
|
Comments (2) :: Post A Comment! :: Permanent Link
|
|
antipatia
|